Publicada mensalmente desde 1902 pelos jesuítas portugueses, a revista Brotéria é uma publicação cultural de inspiração cristã.

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Há 120 anos atrás, três professores de um colégio na Beira Baixa fundaram a Brotéria: Revista de Sciencias Naturaes. Na altura publicavam-se artigos de botânica, zoologia e genética, em muitos dos quais foram classificadas novas espécies de animais e plantas. Pouco tempo depois, passaram também a surgir artigos sobre química, física, medicina, biologia e agricultura. Em 1955, nasceu mais um ramo da Brotéria, que continuou a crescer até hoje — a revista de Cristianismo e Cultura.

120 anos depois, a Brotéria já não é só uma revista. Hoje faz parte do projeto multidisciplinar do centro cultural no Bairro Alto e de uma forma redonda de ver aquilo que nos rodeia: oferecendo uma reflexão escrita serena e rigorosa sobre o mundo e contribuindo para a discussão dos principais temas de hoje na literatura, política, arte, história, filosofia, religião e bioética.


Volume 195-2/3, 120 anos


A Brotéria faz 120 anos.
No mês de setembro de 1902, saía o primeiro número da revista, que começou por ser de ciências naturais. Em janeiro de 2020, com o mesmo nome, relançava-se como projeto cultural maior. No Bairro Alto de Lisboa, junto à Igreja de S. Roque, que é lugar de memória afetiva para os jesuítas portugueses, passou a ser programação cultural e galeria de arte, revista e biblioteca. Realizando-se como comunidade de vida e de trabalho, formada por jesuítas e colaboradores com diferentes formações, bastante jovens na maioria, anima um edifício histórico, abrindo-o à cidade, a quem a habita ou simplesmente passa. Promover e implicar-se no encontro e no diálogo entre a fé cristã e as culturas urbanas contemporâneas é a missão que assume.


José Frazão Correia SJ

Quem se expõe, faz sair de si algo que põe diante de outrem. Por isso, como se diz vulgarmente, põe-se também a jeito. Pode ser ignorado, pode ser incompreendido, pode ser rejeitado. Na exposição que o encontro e o diálogo implicam, fruto e risco vão juntos. Não há como evitar o custo — a morte, se quisermos — dessa graça que eleva pela inclinação. Em linguagem teológica cristã, sabe, na verdade, que de um caminho pascal se trata, de vida, portanto, à qual se acede pelo caminho mais longo que é o outro: o outro diferente — nas Escrituras hebraicas e cristãs é o “estrangeiro”, em relação a quem há o dever da hospitalidade na própria casa; ainda mais radicalmente, o outro que se nos opõe, o “inimigo”, o confim mais extremo, a gratuidade mais radical do mandamento do amor.


Paulo de Oliveira Fontes

À partida, e como hipótese, avançamos dois aspetos que surgem como elementos de uma identidade que se foi forjando e consolidando ao longo da sua história: desde logo, o enfoque cultural da revista, que a escolha do próprio título, de certo modo, corporizou e que o percurso seguido evidencia, numa plasticidade de séries e subtítulos, conforme ao entendimento epocal da própria noção de cultura; e, simultaneamente, a responsabilidade institucional da Companhia de Jesus, de forma direta ou indireta, na promoção, organização e sustentação da revista.


Mário Garcia SJ

Parece evidente que uma revista cultural como a Brotéria avalie as publicações literárias. Trata-se de propor criteriosamente à consideração e ao usufruto do leitor uma determinada obra escrita. A arte da crítica consiste no modo como um leitor competente mostra a plurissignificação dos símbolos e a sua abertura à compreensão humana integral da Beleza. Se a leitura da recensão de um livro, por exemplo, não convence o leitor do seu mérito intrínseco, que o mesmo é dizer, do seu valor, e não lhe proporciona luz suficiente para entrar no seu convívio, para que serve? Se o crítico se coloca em destaque e faz da obra em análise um pretexto para desenvolver os seus próprios gostos e ideias, não fala da obra, mas de si mesmo. Trai o livro e o leitor.


António Júlio Trigueiros SJ

As relações interpessoais, que se construíram ao longo de mais de um século entre a comunidade jesuíta da Casa de Escritores e muitos escritores e intelectuais, ficam bem patentes, seja no impressionante acervo de recensões bibliográficas publicadas desde 1925, como num conjunto de obras dedicadas pelos autores que se encontram no acervo bibliográfico da Biblioteca.


Pedro Franco, Joana Valsassina, João Sarmento SJ

Tal como há jesuítas ligados à física e jesuítas cientistas (de resto, a Brotéria nasceu com jesuítas botânicos e zoólogos), não espantará que haja outros ligados às artes plásticas. A primeira exposição nesta casa foi buscar ao primeiro editorial da Brotéria, de setembro de 1902, uma frase em latim de Santo Agostinho que afirma que tanto os anjos como os vermes fazem parte da grande criação e que nada é contrário à força, à beleza, ao composto da criação. O verme não contradiz o anjo, nem o anjo o verme. Desta forma, queriam justificar o porquê de olharem para o minúsculo, de estudarem os vermes. No que diz respeito ao mundo da arte, a nossa experiência, através da galeria, visa perceber o nosso contexto a partir de um olhar não religioso ou não confessional, mas que é espiritual, de algum modo, aberto à transcendência.


Marcelo Rebelo de Sousa

Acompanhei, desde há muito, a importância da Brotéria, não apenas na reflexão estritamente religiosa mas também no pensamento católico e no enquadramento doutrinário de todas as grandes questões nacionais, fossem elas políticas, económicas, sociais, culturais, associativas – e até mesmo de repercussão para além das fronteiras da portugalidade. Estas minhas linhas, muito simples, muito breves e muito diretas constituem, pois, uma forma de agradecimento do católico, do cidadão e do Presidente da República àquilo que significou, significa e significará sempre a Brotéria na vida portuguesa.

 


Vários autores

A “Brotéria”, fundada em 1902 como “Revista de sciências naturaes”, alargada, em 1925, como revista de “Fé — Sciências — Letras”, a “Brotéria”, nas suas duas séries e como orientação maior, tem observado o propósito de servir a ciência e a cultura e, através desse serviço, o de dar testemunho da verdade. A fidelidade a esse duplo propósito continua a orientá-la, hoje. Noutro contexto. O mundo mudou assombrosamente e continua a transformar-se, diante dos nossos olhos, a um ritmo de vertigem.


Em novembro de 2021, a equipa da Brotéria foi visitar o Paço de São Miguel, em Évora, a convite da Fundação Eugénio de Almeida. Já quase no fim da visita guiada a este palácio agitado por dez séculos de existência, fomos levados até uma sala informalmente conhecida como a “sala de ruminação”: um espaço onde as pessoas se juntavam depois dos jantares, para “digerir” assuntos e continuar as conversas começadas à mesa.

Quando pensámos este número da Brotéria, imaginámo-lo inaugurado por um lugar semelhante àquela sala que fora o palco de muitos serões. Sala de ruminação é, por isso, um capítulo construído enquanto espaço destinado a aprofundar e pôr em perspetiva algumas das ideias e intenções que compõem e distinguem a atual identidade da revista. Ao darmos a conhecer algumas das linhas históricas, espirituais e culturais que teceram os 120 anos de publicação (quase) ininterrupta pretendemos, naturalmente, assinalar e retomar o legado que recua até ao Colégio de São Fiel e, simultaneamente, fazê-lo através de diferentes prismas e com a distância telescópica que o tempo nos oferece. Palavras como “Legómena” podem já ter entrado para o léxico dos mais próximos desta revista, e alguns saberão até a importância que Manuel Antunes SJ, João Mendes SJ e João Maia SJ tiveram para o universo da crítica literária da Brotéria, mas, para muitos outros, a magnitude deste legado permanece ainda por descobrir.

Ruminar a Brotéria em conjunto implica, necessariamente, um esforço de tradução destas mesmas ideias e intenções. Com este ato de tradução procuramos ser recompensados com o olhar do “leitor-estrangeiro”, essencial para que nos consigamos ver a nós próprios.


José Carlos Seabra Pereira

Legómena desloca-se, e leva-nos em deslocação, de acontecimento em acontecimento, de criador em criador, de domínio em domínio, sem guia de marcha nem vertigem de desorientação. Há um rumo de descoberta e articulação no fascínio da multiplicidade de bens com que a arte e a cultura acrescentam os bens naturais do mundo. 


Os textos que se seguem propõem-se a olhar uma das razões mais importantes que explica a resistência da Brotéria ao longo destes 120 anos. Dedicar um capítulo à comunidade da Brotéria mostrava-se-nos fulcral, no entanto, parecia-nos também que iria ser uma tarefa árdua. Por um lado, porque não queríamos que o termo “comunidade” se deixasse acomodar debaixo das suas definições mais comuns (por exemplo, a ideia de comunidade enquanto grupo relativamente homogéneo e organizado) e, simultaneamente, porque é difícil definir uma coisa que nunca teve um contorno definitivo ou evidente. Ainda assim, todos pressentíamos a existência desta comunidade e a sua importância para a persistência da revista.

Os três textos e Ensaio Visual que compõem esta terceira parte podem funcionar como ilustrações daquilo que descrevemos enquanto comunidade. Falamos de uma comunidade informal, de pessoas que nos deixaram livros com dedicatórias; de uma comunidade de vida e trabalho, construída aos poucos a partir de um lugar pensado e que se pretende habitado; de uma comunidade aberta, que nasce do diálogo entre diferentes matérias e pensamentos.

Ao contrário da pequena comunidade residente de jesuítas, esta outra comunidade da Brotéria nunca foi planeada nem prevista, e a sua definição não é feita em função da negação daquilo que não a integra, ou que lhe é estranho. Esta comunidade é sobretudo radical: a sua forma poderá ser volátil e orgânica, constatada e renovada todos os dias; mas o lugar de onde esta emana, aquilo a congrega, permanece profundo e agarrado à terra, resistindo à passagem do tempo. Só assim é possível testemunhar a metamorfose desta comunidade; e só assim se explica a sua permanência.


Francisco Sassetti da Mota SJ

O que neste ensaio se pretende fazer é mostrar que tipo de comunidade tem vindo a ser construída na Brotéria nesta sua nova configuração. Para isso, procurar-se-ão estabelecer quatro passos: em primeiro lugar, que a Brotéria nunca foi propriamente uma comunidade no sentido muito estrito do termo; em segundo lugar, que, ao longo dos últimos cinco anos, se têm dado passos concretos para que essa comunidade pudesse tornar-se uma realidade; em terceiro lugar, que essa comunidade que se tem vindo a construir já existe e nasce continuamente por causa do fascínio comum por uma missão; finalmente, em quarto lugar, que esta comunidade é uma comunidade experimental, arriscada, que busca ressituar o locus no qual a Brotéria se insere e opera. 


Fernanda Fragateiro

De uma sala de leitura a uma leitura até uma não leitura: o encontro íntimo de Fernanda Fragateiro com Maurice Blanchot, o autor de L’attente l’oubli [À Espera do Esquecimento] e de Le livre à venir [O Livro por Vir], é uma dialética entre Ler e Não-Ler. Baseada em conversas infinitas com a obra do filósofo, esta série de desenhos é um estudo sublime do tema da visibilidade e aparecimento.

 

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